0

Mais um caso para o detetive Hercule Poirot: A morte nas nuvens

 

Havia estipulado duas obras de Agatha Christie para ler esse mês e consegui dar conta do recado sem dificuldades... O primeiro lido foi Os Crimes ABC mas não sabia que minha segunda escolha havia sido tão incrível e ainda melhor que ele. Falo de A morte nas nuvens, publicado em 1935... Trata-se de mais uma aventura do detetive belga Hercule Poirot, desvendando um crime que havia acontecido 'debaixo de seu bigode', durante um voo de Paris a Croydon. Uma mulher de meia idade pendia sua cabeça no assento do avião e instantes depois, um comissário percebeu que algo havia errado ali...

Os personagens foram estrategicamente colocados na trama, e aparentemente, nenhum deles possuía ligação com Madame Giselle. Quem tinha interesse em sua morte? Cabia a Poirot descobrir... Um dos pontos interessantes nesse suspense todo é que o próprio detetive era um suspeito em potencial... Cabia tão somente a ele provar que esse ultraje do juri era inverídico, e evitar que algum inocente pagasse pelo assassinato...

Usando mais uma vez de sua habilidosa arte de contar uma trama de mistério, Agatha nos conduz por dentro da investigação a fim de nos entregar um desfecho surpreendente. Devorei o livro em poucas horas, tal a agilidade da narrativa, que me conduzia com frenesi a seguir adiante capítulo a capítulo... Juntando as peças do quebra-cabeças, novos fatos foram surgindo tornando tudo ainda mais inesperado, e ao final tudo se encaixou perfeitamente... Dentre os personagens suspeitos, haviam três mulheres e os demais passageiros eram homens. Tínhamos um dentista, um escritor de romances policiais, pai e filho arqueólogos, uma condessa e uma cabeleireira, entre outros... Cada um trazia particularidades que contribuíram para o suspense nos deixar suspeitando de tudo e todos...

Uma excelente estória, com narrativa fluida e alucinante, que vai permitir ao leitor algumas horas de intensa satisfação com um digno título do gênero...

Para conhecer demais projetos de leitura do mês de Setembro, clique aqui...

2

O sol também se levanta - Ernest Hemingway [#MLI2016]

Há um bom tempo o livro O sol também se levanta estava em minha lista de leituras, e esse ano resolvi desencalhá-lo da estante... Escrito por Ernest Hemingway em 1926, narra as [des]aventuras de um grupo de americanos em Paris, após o fim da Primeira Guerra. De lá, eles partem para a Espanha a fim de buscar novas sensações num festival [fiesta] cheio de danças, touradas e procissões de cunho cultural-religioso. Em meio a esse exótico cenário, um romance entre Barnes e Brett acontece... Barnes é uma figura mutilada e expatriada da guerra, e sua narrativa nos faz adentrar nesse universo cheio de figuras de uma geração desgastada mas que ambicionam diversão, pura e simplesmente, entretendo-se ao máximo antes que o marasmo se aposse deles novamente...

Trabalhando como fotógrafo, impotente após voltar da guerra, acaba se apaixonando por Brett, uma garota que não se prende a amarras sociais e se envolve com vários homens, quantos ela sinta vontade. Barnes seria o touro ferido de guerra, que não possui forças de celebrar sua própria fiesta. De Paris a Pamplona, a obra retrata uma geração que sobreviveu a guerra e se entregou a luxúria, ao álcool e a vida fútil, preocupando-se apenas com o presente, desperdiçado em apostas, interações vazias e diálogos carregados de drama, acidez e ironia, numa tentativa vã de disfarçar as frustrações pessoais. 











 "Durante o dia, nada mais fácil do que mostrar que não se dá importância, mas, à noite, é diferente"









A influência de Hemingway remete aos escritos de Jack London, nos primeiros anos de produção literária. O objeto principal de suas narrativas são o mundo selvagem e violento, amargura e [des]ilusão. Seu inglês vigoroso possibilitou que seus textos se tornassem mais intensos, evitando adjetivos na escrita. Trabalhou como jornalista, serviu ao exército e algumas de suas experiências de guerra podem ser encontradas na obra Adeus às armas.

Rompendo com a sociedade e convenções sociais depois de tantas experiências traumáticas, entrega-se a uma desesperança que fatalmente lhe tiraria o gosto de viver... Muda-se para Paris e reúne-se ao grupo que ficou conhecido como Geração Perdida, que contava com membros como F. Scott Fitzgerald, o pintor Pablo Picasso e Ezra Pound, entre outros. Abandonou o jornalismo e rumou para a Espanha, documentando a fiesta de Pamplona, com seus espectadores e toureiros. Fiz necessário detalhar essa fase do autor a fim de se entender a obra aqui resenhada; a experiência pessoal de Hemingway resultou nesse romance.

O autor ainda participou da Guerra Civil espanhola, e Por quem os sinos dobram? nasceu desse evento. Vendo o fascismo se alastrando, tomou ainda mais desgosto por tudo... Após alguns anos volta aos romances. Mas algo havia se fragmentado sem chance de retorno na mente genial do escritor... Em 1961, ele se mata com um tiro de fuzil, mesma arma que seu pai se suicidou, anos antes... 

É notável o avanço na estética literária de O sol também se levanta. Seu enredo é desprovido de teatralidade, embargado de ironia, a contar de seu próprio título [O sol também se levanta é uma referência ao ferimento que Jake Barnes sofreu na guerra, impossibilitando seu membro de 'subir'] e traz em seus personagens uma clareza que beira o real, sem elementos fantasiosos que tornariam tais indivíduos figuras caricatas dentro da crua narrativa... 

Em suma, uma obra espantosa. Sua essência beira o autobiográfico e flerta com autores contemporâneos que beberam avidamente da fonte 'perdida' da geração que abraçou Hemingway... 



2

Mulheres suicidas na literatura... [Setembro amarelo]

Venho através deste post apresentar algumas poetas/escritoras que tanto admiro e que infelizmente partiram dessa vida por suas próprias mãos... Já havia falado de algumas aqui antes, ou resenhado alguma de suas obras, mas dessa vez preferi falar um pouco sobre a vida de cada uma delas, não focando em um livro em específico...


Anne Sexton foi uma escritora e poeta americana, nascida em 1928 e que aos 45 anos, em 1974, pôs fim a sua existência por intoxicação por monóxido de carbono, ao trancar-se na garagem e ligar o motor do carro... Desde jovem já aparentava ter problemas psicológicos que só se agravavam com o passar dos anos... Muito de sua obra é sobre suas crises de depressão e poesia com tons confessionais. Conheceu um terapeuta que a incentivou a escrever. Já na década de 1960, suas crises passaram a afetar sua vida profissional, mas apesar disso, ainda não havia desistido e continuava publicando seus textos, chegando até a publicar quatro obras infantis, em co-autoria com uma amiga, Maxine Kumin

Além da depressão e suicídio, temáticas como masturbação e adultério figuravam entre seus escritos. Um dia antes de sua morte, almoçou com Maxine para revisar o texto de um livro que só seria publicado após sua morte... Algumas de suas obras memoráveis são Love Poems, Mercy Street e The death notebooks... 



Sylvia Plath, americana de Massachussets e nascida em 27 de outubro de 1932 foi poetisa, romancista e contista. A redoma de vidro é um de seus livros mais conhecidos e funciona como uma espécie de autobiografia. Assim como Sexton, também fazia uso da poesia confessional em suas obras... Tentou o suicidio tomando uma dose de narcóticos, ainda em seus primeiros anos na escola, na década de 1950. Chegou a ser tratada com eletrochoques quando internada numa instituição psiquiátrica. Em 1955 ela se casa com o britânico Ted Hughes. 

Um aborto que sofreu teve certa influência em sua obra a partir dali. Chegou a frequentar os mesmos seminários do poeta Robert Lowell, que Anne Sexton participava. Vivendo já na Inglaterra, seu casamento começa a ruir e ela se separa, indo morar com os dois filhos no apartamento que futuramente seria seu local de falecimento... Poucos meses após a separação, ela tranca os filhos no quarto, vedando as entradas da porta e se dirige a cozinha, deitando a cabeça no forno depois de ligar o gás e tomar remédios para dormir... Ela ainda teve o cuidado de deixar comida para as crianças, além da janela aberta, apesar da forte nevasca. No dia seguinte, a enfermeira que havia contratado a encontra morta... Sylvia teve seus diários publicados, hábito que mantinha desde os 11 anos... Curioso que seu filho se enforcou em 2009,  também depressivo, não deixando filhos...


Em 25 de janeiro de 1882 nascia Virginia Woolf, autora e poeta das mais influentes no movimento modernista. Ao Farol, Orlando e Mrs. Dalloway são suas principais obras... Em 1915 estreia na literatura, frequentou o meio literário desde cedo, devido a educação dada por seu pai. Em 1941, depois de escrever um bilhete de despedida para seu marido, com quem casara em 1912, vai até o rio próximo a sua residência, enche os bolsos de seus casacos com pedras e afoga-se, sendo seu corpo encontrado apenas 3 semanas mais tarde... Durante sua curta vida,  fundou uma editora com Leonard, onde publicou alguns de seus livros. Sofreu alguns colapsos mentais que vieram a contribuir para seu estado depressivo... Tinha 59 anos, quando de sua morte. 


Ana Cristina César, carioca, faleceu em 1983, ao se jogar do sétimo andar do apartamento de seus pais; tinha 31 anos. Foi poeta e tradutora brasileira e fez parte da Geração Mimeógrafo, tendo sua poesia classificada como Marginal. Viveu um período de sua vida em Londres e cursou Letras na PUC-RJ. Sua linha literária beira o ficcional e autobiográfico. Suas principais publicações são Luvas de Pelica, A teus pés e Cenas de Abril. Recentemente, a editora Companhia das Letras lançou o título Poética, contendo a obra completa de Ana C.


Um dos nomes mais influentes da poesia lusitana é o de Florbela Espanca, aquela que nasceu e morreu no mesmo dia, em 08 de dezembro, com a idade breve de 36 anos... Sua dor e melancolia pôde ser extravasada através de seus sonetos e poesias... Nasceu em Alentejo, como filha bastarda de Antónia da Conceição Lobo e João Maria Espanca. Datando de 1903, surgem suas primeiras composições poéticas. Frequentou o curso secundário em Portugal, sendo uma das primeiras mulheres a realizar tal intento na época. Na juventude apresentou sintomas de neurose. Casou três vezes ao longo da vida, perdeu seu irmão Apeles em 1927 e seu estado mental a partir daí se agravou. Tentou o suicidio por três ocasiões, obtendo sucesso na última, em 1930...

Suas principais obras são Charneca em flor, Livro de Mágoas e Livro de Sóror Saudade. 




11

os crimes ABC: uma envolvente trama de assassinatos, por Agatha Christie...

 Os Crimes ABC foi um dos grandes títulos da aclamada Agatha Christie que tive o prazer de ler recentemente... Aproveitando o mês de seu aniversário, resolvi trazer a resenha dessa obra a vocês, leitores do blog...

Hastings, amigo de Hercule Poirot nos conta em detalhes um caso de assassinato que tem relação com guias de trem e uma forma peculiar de um assassino escolher suas vítimas, numa caça aparentemente aleatória... A ordem é feita pelas letras do alfabeto, pra designar o local e inicial do sobrenome da vítima. O curioso é que o assassino envia cartas ao detetive belga antes do crime acontecer... Várias localidades da Inglaterra ficam em polvorosa e com uma expectativa de morte quando as notícias sobre o assassino começam a pipocar nos jornais... Mas a princípio, exceto Poirot, todos imaginam se tratar de mais um crime comum e banal... 

A primeira vítima é uma senhora que vende jornais. Após algumas investigações e uma segunda carta endereçada a Poirot, outra vítima - dessa vez uma jovem mulher - é encontrada morta numa praia... Seu sobrenome começava com B, o local de sua morte foi Bexhill. A morte seguinte é de um homem, com o sobrenome começando com C; Churston foi onde ele foi morto... Os crimes não param por aí... Poirot sente que há uma conexão entre as vítimas e ela passa despercebida, e só reunindo pessoas envolvidas com as vítimas é que parece surgir uma pequena luz ao fim do túnel...

Em Os Crimes ABC nada é o que parece... Em dado momento, o suspeito se revela, mas o leitor acompanha a trama até seu desfecho a fim de descobrir o motivo desses crimes... e é nesse momento que acontece uma reviravolta, de impressionar os aficionados pelo gênero...

Graças a sua escrita poderosa e detalhista, Agatha transporta o leitor para dentro da investigação e por horas você se pega tentando unir as minúcias, a fim de chegar a uma conclusão... Apesar de gostar bastante do gênero, são raras as vezes em que descubro as intenções da autora... Mesmo utilizando a mesma base em suas tramas, os personagens são distintos, os crimes são variados e certamente as histórias tem originalidade, sem cair na mesmice que um grande número de obras poderiam causar a um escritor... 

Indico aqueles que apreciam o gênero e aqueles que nunca leram nada dela. A história prende do início ao fim, e certamente vai agradar 'gregos e troianos.' Não é a toa que Agatha Christie é conhecida como a Rainha do Crime na literatura policial...

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...