23 agosto 2016

a Poética de Ana Cristina Cesar...

Sempre me deleito ao revisitar a obra de poetas que admiro, e com Ana Cristina Cesar - ou Ana C. - não seria diferente... A Editora Companhia das Letras trouxe aos seus leitores uma obra que se trata de um compilado de sua obra marginal. E é esse livro que tenho agora em mãos, e com grande deleite trago as impressões dele a vocês, leitores do blog...

Armando Freitas Filho, também poeta e amigo de Ana C. nos fala na apresentação sobre os paradoxos que permeiam os versos da autora. Ela traz pudor e ousadia numa mesma frase, é singular e anônima, é escrita que interpela a si mesma e a quem a lê. 

"Preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos vazios."

Cenas de Abril foi publicado em 1979 e é a primeira obra que Poética nos apresenta. Há textos em verso e textos em prosa, mas ambos os tipos nos revelam a genialidade marginal e despretensiosa de Ana na construção de seus devaneios... Ela se permite encaixar no leitor e nós nos encaixamos nas palavras dela... Correspondência Completa também é de 1979; é um texto denso e com toques de melancolia. 

Luvas de Pelica foi publicado no ano seguinte... A poética entremeada em uma conversa íntima com o leitor se faz presente e suntuosa, mas ao mesmo tempo nos parece jogada ao acaso, num despropósito... A teus pés tem uma linguagem simbólica, onde o subjetivo permeia por entre os versos... 

"Não é automatismo. Juro. É jazz do coração."

Em Inéditos e Dispersos a voracidade de Ana transpõe a poesia. Antigos e soltos é uma reunião de material publicado após a sua morte, considerados rejeitados e que foram organizados por Viviana Bosi. Graças a ela temos acesso a esses poemas que há muito perdidos em poeira de baús, nos vem à tona mais de 30 anos depois de escritos... 

"A biblioteca não é moderna. Na estante velha não tem romances incertos, só certos. Bolor. Calor. Lombo, lombada, lambida, relida. Eu quero aquele livro que dá tesão, não?"

Ao longo do livro temos algumas imagens de rascunhos de Ana C., bem como alguns de seus desenhos... Há uma cronologia de sua vida e um apêndice com várias informações na perspectiva de pessoas próximas sobre as inspirações da autora, como os beats e Walt Whitman, e a obra de Emily Dickinson, que serviram de base para a sua própria. 


Ana Cristina desconcerta, quebra paradigmas e reconstrói uma literatura que a deixou em evidência entre os poetas da Geração Mimeógrafo... Ela une elementos como o lirismo carregado de nostalgia, a metafísica e certa afetação personificando indivíduos reais ou [re]inventados, que se revelam aos olhos do leitor, que figura no papel de voyeur ao invadir a intimidade minimalista de seus escritos... 

Sua morte abrupta [ela se suicidou em outubro de 1983], fez com que tudo relacionado a ela ficasse em suspenso, como se no momento de seu pulo na janela, flutuasse sem encontrar o fim da queda. Marcando a geração dos anos 1970, eu ousaria abusar de certa dicotomia ao definir sua personalidade e escrita: elegante e suja. Decadente e glamourosa. Pudica e visceral. A marginal Ana é - convenhamos - figura única da literatura brasileira... Ela foi tudo, menos ordinária e intransitiva... 

Parafraseando a própria, diria que sua obra fecundou os campos de melancolia... 

19 agosto 2016

† Lançamentos DarkSideBooks †

Não canso de divulgar DarkSide pra vocês, não é? E olha que nem sou parceira, mas dá gosto recomendar aqui no blog livros que tem a minha, a sua, a cara de todo mundo que aprecia livros com qualidade gráfica impecável e títulos pra ninguém botar defeito... Deixando a pieguice em ritmo de narrador de sessão da arde de lado, vamos conhecer mais dois livros que prometem mexer com as emoções dos leitores da editora mais sinistra e bacaninha do Brasil... hehe...

O homem que caiu na Terra [Sinopse do Skoob]

O Homem que Caiu na Terra tornou-se um verdadeiro clássico da literatura e uma das mais refinadas, sutis e delicadas ficções científicas já escritas. Publicado originalmente em 1963, ganhou reconhecimento em todo o planeta com a adaptação para o cinema dirigida por Nicolas Roeg em 1976. O filme também marcou a estreia de David Bowie no cinema encarnando o protagonista alienígena - para quem o papel parecia ter sido especialmente pensado (o que não foi o caso): um ser andrógino, impúbere, alto para os padrões terráqueos, delicado, magro, polido e que tenta se adaptar à vida terrestre para sobreviver entre os humanos.

Thomas Jerome Newton veio de Anthea para a Terra em uma missão desesperada para salvar os poucos habitantes que ficaram em seu longínquo e desconhecido planeta. Para isso, precisa construir aqui uma nave que possa trazer os 300 de sua espécie que ainda vivem em um planeta onde a água acabou e os recursos são cada vez mais escassos.

Com conhecimento e inteligência muito superior aos humanos, Newton logo se torna um bem sucedido empresário do ramo de patentes tecnológicas e também descobre a solidão, o desespero e o álcool - criando uma delicada parábola sobre as mudanças que estavam ocorrendo entre os anos de 1950 e o início da Guerra Fria.

Escrito com vigor e com uma prosa carregada de tensão poética, Walter Tevis produziu uma das ficções científicas mais realistas sobre um alienígena que vai absorvendo o dia a dia, o jeito e os vícios humanos pouco a pouco. Realista o suficiente para se tornar uma metáfora daquilo que todos nós carregamos: uma indescritível angústia e solidão existencial.

O Homem que Caiu na Terra
Walter Tevis
Ano: 2016 
Páginas: 224
Editora: DarkSide Books


Fábrica de Vespas [Sinopse do Skoob]

Frank – um garoto de 16 anos bastante incomum – vive com seu pai em um vilarejo afastado, em uma ilha escocesa. A vida deles, para dizer o mínimo, não é nada convencional. A mãe de Frank os abandonou anos atrás; Eric, seu irmão mais velho, está confinado em um hospital psiquiátrico; e seu pai é um excêntrico sem tamanho. Para aliviar suas angústias e frustrações, Frank começa a praticar estranhos atos de violência, criando bizarros rituais diários onde encontra algum alívio e consolo. Suas únicas tentativas de contato com o mundo exterior são Jamie, seu amigo anão, com quem bebe no pub local, e os animais que persegue ao redor da ilha.

Abandonado à própria sorte para observar a natureza e inventar sua própria teologia – a maneira do Robinson Crusoé de Daniel Defoe –, Frank desconhece a escola e o serviço social, já que seu pai acredita na educação “natural”, recomendada pelo filósofo do século XVIII Jean-Jacques Rousseau e apresentada em seu romance Emílio, ou Da Educação (1762), que sugere que as crianças devem crescer entre as belezas da natureza, permitindo que elas se deleitem com a flora e a fauna. A natureza humana seria boa a princípio, mas corrompida pela civilização. Quando descobre que Eric fugiu do hospital, Frank tem que preparar o terreno para o inevitável retorno de seu irmão – um acontecimento que implode os mistérios do passado e vai mudar a vida de Frank por completo.
Fábrica de Vespas
Iain M. Banks
Ano: 2016 
Páginas: 240
Editora: DarkSide® Books





Não preciso falar o quanto anseio por esses dois livros, não? Espero ter grana sobrando assim que possível... 

18 agosto 2016

O que há de estranho em mim? NADA, você é uma protagonista chata mesmo.

Confesso que o boom nos livros de Gayle Forman me fez ficar curiosa sobre sua escrita, principalmente por abordar a temática de suicídio, a qual sou bastante interessada... Mas, como tudo que vira 'modinha' me faz tomar abuso, acabei desistindo. No entanto, ouvi falar de O que há de estranho em mim, como sendo o primeiro livro dela, publicado pela Editora Arqueiro e resolvi [pra que, Deus?] voltar atrás e dar uma chance pra mulher... aproveitei que ganhei um exemplar e me entreguei a leitura com boas expectativas... 

A história fala sobre Brit [super irritante], que acaba internada numa espécie de escola/clínica de repouso para adolescentes que os pais não conseguem controlar e esquecem por lá. O livro já começa com o habitual clichê, já trabalhado em outras obras ou em filmes de sessão da tarde, com uma escrita rasa e construção de personagens cheia de estereótipos, nada fora do comum, uma leitura mais do mesmo...

A trama é narrada em primeira pessoa pela protagonista, e ela não me convenceu a gostar dela, ao contrário - senti repulsa de suas atitudes de rebelde sem causa - e juro que tento entender como há jovens que se dizem identificar com ela. Ok que todos temos problemas mas sendo babaca fica difícil lidar e superar todos eles. As personagens secundárias que ficam amigas de Brit não me causaram empatia [talvez a gordinha Martha seja exceção], e acredito que a história tinha potencial pra ser melhor trabalhada mas a autora pecou bastante nesse quesito, pois apresenta os problemas de maneira pouco convidativa. de forma vazia...

Como o livro se dá em primeira pessoa, o que temos é a visão de Brit sobre seu pai, sua madrasta que ela chama de 'monstra', e sobre todos que convivem ao seu redor. Ela toca numa banda e o rapaz pelo qual ela se sente atraída não foge do clichê de beleza padrão. A madrasta é 'monstra' porque é do tipo de esposa que conta para o pai sobre as notas baixas da garota. O livro pareceu pra mim uma cartilha de 'como se revoltar na adolescência'. Talvez seja fruto da cultura que os americanos vendem, de vazio e futilidade... Mas explicar esse contexto já renderia um novo post...

Sobre o tratamento de choque aplicado nas garotas internadas a coisa pende para um show de horrores. É possível que isso ocorra, mas achei a problemática mal trabalhada, com diálogos insossos que em nada contribuíram para aprofundar o tema... O pior de tudo foi a expressão 'gata' usada inúmeras vezes... Confesso que a única coisa que melhorou foi a parte em que as garotas se uniram pra descobrir provas que seriam usadas para fechar o local, e ainda assim, mais elementos clichês foram utilizados pra isso...

Em suma, parece que a leitura só me serviu para perceber que ando cada vez mais exigente com leituras ou a qualidade literária é que anda rasa mesmo... Um título que aborda temática semelhante de maneira bem mais digna é o livro Garota, interrompida. Esse sim, eu recomendo...




14 agosto 2016

Destino: Poesia

Ao receber a visita do carteiro me trazendo alguns títulos da Editora Record, não resisti a beleza do livro Destino: Poesia e devorei seu conteúdo pelas duas horas seguintes, em que - compenetrada -  me entreguei a sua apreciação... 

Organizado por Italo Moriconi, trata-se de uma coletânea de grandes poemas dos grandes nomes da poesia marginal - ou Geração Mimiógrafo - que produziu um grande tesouro na década de 1970 para a literatura nacional... Em meio a censura da ditadura militar, esses versos serviam, muitas vezes, como resistência ao movimento cultural do país naqueles anos de chumbo... 


Ana Cristina César, Cacaso, Paulo Leminski, Torquato Neto e Waly Salomão ilustram as 160 páginas de Destino: Poesia com o melhor de suas obras. Os anos 70 foram tempos de contracultura e comportamento transgressor, por vezes chamado marginal. As convenções sociais e instituições religiosas eram afrontadas por jovens 'a frente de seu tempo'. Poetas que surgiram nesse período, confeccionavam seus livros de forma artesanal e vendiam de porta em porta, nos teatros, bares e ruas. Onde os encontros e interações sociais ocorriam. Os cinco poetas reunidos nesse livro estão mortos, dois deles tiraram a própria vida, no auge de suas produções literárias. Viveram e queimaram intensamente: um sonho utópico e afrontador por meio de suas composições estético-literárias. 

Torquato Neto foi um anjo maldito suicida que marcou a década de 1970. Ana Cristina - ou Ana C. para os mais íntimos de sua obra - se joga do apartamento em que morava com os pais no início da década de 80. Morto o corpo, sua poesia vive. E serve de influência/referência para poetas mulheres de nossa geração... Salomão foi o último da lista a falecer. Paulo Leminski nos deixou em 1989. Antônio Carlos, o Cacaso - partiu dois anos antes do curitibano Leminski. Mas seus versos foram imortalizados, e nos chegam em fragmentos por meio dessa antologia publicada pela José Olympio Editora. 

A poesia lírica de Ana C. et all compilada aqui é capaz de encantar o leitor habituado aos versos e também aos iniciantes. Basta ter sensibilidade ao toque invisível das palavras tão intensamente entremeadas, cadenciadas e viscerais. Acidez, ironia e desencanto se mesclam nas linhas escritas. Um paraíso de versos que venceram o tempo...

"A poesia não - telegráfica - ocasional -
me deixe sola - solta -
à mercê do impossível -
- do real."Ana C.

"Minha pátria é minha infância:
Por isso vivo no exílio."
Cacaso.

"morreu o periquito
a gaiola vazia
esconde um grito."
Leminski.

"eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível."
Torquato Neto.

"Entra mar adentro
Deixa o marulho das ondas lhe envolver
Até apagar o blá-blá-blá humano.
Maré que puxa com força, hoje. É a luz cheia, talvez..
As retinas correm a cadeia de montanhas que circunda a praia."
Waly Salomão.