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O erotismo expurgado de Anaïs Nin...










 "Era a amante seduzida pelo obstáculo e o sonho."










Há 114 anos,  em 21 de Fevereiro de 1903, nascia a escritora francesa Anaïs Nin. Ainda na infância se instalou em Nova York com a família. Passou o resto da vida entre a América e o Velho Mundo. Escreveu ensaios, críticas, traduções. Deixou obras de ficção e diários, nos quais relatou seus amores,  estudos, devaneios e anseios...

Seus diários só foram publicados em 1966. Seu amante Henry Miller - também escritor - notou a riqueza de tais documentos e estimulou Nin a torná-los públicos. Tais documentos permitiram compor um retrato de Paris no período em que foram escritos, principalmente no entre-guerras e da Nova York pós-segunda guerra mundial.

Nin foi precursora de ideias libertárias sobre a mulher e o sexo. Foi amiga de escritores como D. H. Lawrence, Antonin Artaud e Jean Cocteau. Henry e June foi sobre seu romance com Miller. Em 1977, aos 73 anos, falece em Nova York, onde viveu os últimos anos de sua vida...

Certamente uma das autoras que influenciam minha existência, Anaïs Nin foi um tesouro encontrado na primavera de alguns anos atrás... e de lá para cá, venho grifando seus textos, me identificando em seus trechos, me deleitando em sua escrita... Como hoje seria seu aniversário, resolvi falar um pouco [mais] sobre ela...

Separei abaixo algumas quotes da sua rica obra... E espero sinceramente que eu consiga 'tocar' alguém com elas... 


"Angústia era uma mulher sem voz gritando num pesadelo." 

"Ela se sentia prisioneira dos imensos maxilares de seu desejo, sentia-se dissolver, arrancada. Sentia que se entregava à sua fome sombria, com os sentimentos ardendo,subindo de dentro como fumaça de uma massa negra." 

"Lilian era como um mar espumante,encrespando o naufrágio, os destroços de suas dúvidas e medos." 

Trechos do livro Fome de Amor, publicado no Brasil em 1981...



"Naquele lugar, o viver era gradual, orgânico, sem descidas ou subidas vertiginosas."
"Não observou que a quietude dela já era em si uma forma de ausência." 
"O que sobrava era apenas um traje; estava empilhado no chão do quarto dele, vazio dela."
"Era terrivelmente doce ficar nu na presença dela."
Trechos de Uma espiã na casa do Amor, publicado em 1959.



"Ela sabia que ele estava olhando para o sexo dela, sob o pelo muito preto e cerrado, e finalmente abriram os olhos e sorriram um para o outro. Ele estava entrando no estado de êxtase, mas teve tempo de reparar que ela estava em estado de prazer também. Pôde ver a umidade cintilante aparecer na boca do sexo dela." A Fugitiva.

"Ele é extravagante, viril, animal, opulento. É um homem a quem a vida embriaga, pensei. É como eu." Henry e June.

"Às vezes ela podia ouvir os próprios ossos estalando ao erguer as pernas acima dos ombros, podia ouvir a sucção dos beijos, o som de gotas de chuva nos lábios e línguas, a umidade espalhando-se no calor da boca como se estivessem comendo uma fruta que se desmanchava e dissolvia." Delta de Vênus




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Carnatona 2017




Eis que vou participar da segunda edição da Carnatona, que ocorrerá entre os dias 24/02 e 01/03. Cada dia uma "Escola de Samba" ficará responsável por trazer muitos desafios, e para saber mais informações, acesse o evento do Facebook. Não esquecer das regras de participação geral:


1 - Validar a participação no formulário: https://goo.gl/forms/Vm8lMfUCtSIXKaqT2
As Inscrições estarão disponíveis do dia 01/02 ao dia 23/02.

2 - Possuir endereço de entrega no Brasil.

- Não é necessário ter canal no youtube para participar da maratona;
- Siga o Twitter @Carnatona Sprints e Desafios acontecerão por lá
-Use  #Carnatona em todas as suas postagens sobre a maratona.

DESAFIO EXTRA:
Você pode acrescentar em sua TBR:

- Um livro nacional.
- Um livro de fantasia.

Minha TBR ficou assim:

Histórias da Velha Totônia - José Lins do Rêgo. Além de nacional, trata-se de um livro infanto-juvenil com elementos de Fantasia na narrativa.
Drifters volume 01 - Kouta Hirano [mangá]
O mandarim - Eça de Queiroz. [Clássico da literatura portuguesa]


E vamos foliar com os livros, né pessoal? \o/ Quem tá animado joga confete...
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#LendoSandman - Morte, O alto preço da Vida


Morte é irmã de Sonho, e além de suas aparições eventuais em Sandman, ela possui duas mini-séries em que aparece como protagonista, e é uma delas que trago hoje a vocês, como parte do Projeto Lendo Sandman... O primeiro arco de histórias conta com três partes e se chama Morte - O alto preço da vida, onde a alegre garota gótica tem direito a viver uma vez a cada cem anos como mortal... Acompanhando as 24 horas dela como 'Didi', enxergamos seu lado humano...

Sexton Furnival é um adolescente que já não sente prazer em viver, é um suicida em potencial. Andando sem rumo, acaba encontrando uma estranha garota pálida que lhe ajuda salvando sua vida?!? [insira a ironia aqui] num lixão da cidade... Após esse encontro, eles vão passar as próximas horas juntos, conhecendo tipos estranhos, vivenciando situações inusitadas e fazendo coisas comuns, como comer um cachorro quente, por exemplo... 

Sexton acha a garota cheia de ideias malucas, e mesmo ela afirmando ser quem é, ele não acredita e acha que é tudo invenção da cabeça dela, mas algo o intriga e ele permanece ao seu lado, enquanto ela 'passeia' pela cidade pra lá e pra cá, ganhando favores de estranhos como se exercesse um forte carisma sobre eles, e  que Sexton não é capaz de entender porquê.

Surge no caminho deles uma mulher chamada Mad Hattie, que diz estar viva a mais de duzentos anos, ela é uma mendiga e quer que a Morte encontre seu coração, há muito perdido. Para isso, ela ameaça Sexton, então a garota resolve ajudá-la em seu pedido... 

Outro personagem que eles encontram pela frente é o Eremita, que pretende aprisionar a garota para que não haja mais morte e a vida seja eterna. Ele chega até a roubar o ankh que ela carrega no pescoço...



Cheio de diálogos mordazes ao longo da história, Morte - o alto preço da vida traz importantes metáforas e questionamentos ao leitor. Viver como uma humana por um curto período de tempo faz com que a Morte aproveite cada segundo como se fosse o último, e isso é o que deveríamos fazer durante nossa existência. Segundo a 'filosofia' de Neil Gaiman, vivemos apenas uma vez [por vez] e devemos enxergar com importância até as coisas mais simples que acontecem em nosso cotidiano...

Revisitar as páginas do universo de Gaiman me faz lembrar de uma pessoa querida que perdi ano passado... Num segundo estávamos conversando e no dia seguinte, ele já havia partido... Não há como premeditar tais situações e depois do ocorrido,  - e parece que só dessa maneira é que damos mais valor às coisas - é que minha percepção sobre nossa brevidade foi aprofundada... Precisamos viver, extrair o deleite num romance a dois, numa viagem, num projeto de trabalho ou faculdade, mas também num abraço que damos aos nos despedir de alguém,  numa mensagem de afeto direcionada a pessoas que você ama ou numa taça de sorvete de coco que você come de madrugada. Esses pequenos prazeres se eternizam em nossas memórias, enquanto elas ainda não falham, mas precisamos valorizá-las para que não se percam em banalidades sem importância ou sentido...

Viver por um curto período faz parte da lição de Morte, para que ela entenda sua própria existência, e o porquê de sua missão, que - apesar de nunca aceita por todos -  é certa. Sempre. Sem exceções. 

É interessante na HQ vermos personagens que fazem parte originalmente da série de seu irmão aparecendo na trama. Os acontecimentos acabam se entrelaçando, embora não seja problema ler O alto preço da vida antes dos arcos de Sandman... Outro fator que nos deixa mais a vontade com a personagem, e até nos faz criar simpatia por ela, é sua aparência que em nada lembra a  figura sombria vestida de capuz portando uma foice, que nos faz temer o momento quando chega a hora. A figura da garota sorridente até nos deixa com um pouco de esperança' de que - na hora em que partirmos -  não será tão doloroso assim... É uma ideia oposta ao que entendemos por 'Morte'. 

Como é realmente,  não tenho pressa em descobrir...  Que demore bastante até eu ter meu encontro com a garota gótica que carrega um ankh no peito...

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Reportagens - Joe Sacco

A resenha que trago hoje é de uma obra lançada pela Quadrinhos na Cia, de um autor/jornalista que eu já deveria ter falado aqui antes... Uma leitura de apenas 200 páginas, mas que foi sorvida como bebida amarga, devido a temática pesada e cruel de suas imagens... 




O quadrinho traz uma introdução do próprio autor falando a respeito do que trata a obra. A primeira história é sobre o julgamento do Dr. Kovacevik, envolvido no genocídio ocorrido com os bósnios durante o conflito na Guerra da Bósnia. O julgamento se deu em Haia. Joe Sacco também explica sobre as dificuldades que encontrou para fazer a publicação no formato de HQ, devido a alguns entrevistados que não queriam se tornar públicos no caso...

Em Hebron, na Cisjordânia, o jornalista foi cobrir os conflitos entre Israel e Palestina na cidade... Toques de recolher são impostos a boa parte dos palestinos que vivem na área controlada pelos judeus... Um verdadeiro cerco contra os árabes... Em meio a escombros, os habitantes lutam para sobreviver... Moradias de refugiados na faixa de Gaza são derrubadas, por supostamente servirem de base para terroristas... Um dos lemas do local é de que você nunca construa nada muito pomposo, pois vai perder tudo mesmo... e nem faça casas com primeiro andar... são os alvos mais visados pelas tropas como sendo esconderijos dos atacantes... 



Em suas visitas ao Cáucaso, Sacco nos permite conhecer um pouco do que acontece nos campos de refugiados chechenos, que vão desde as dificuldades de se conseguir uma barraca para dormir e acomodar a familia, às condições miseráveis  nos campos, locais abandonados servindo de abrigo, em que famílias alquebradas se sujeitam aos perigos de um vazamento de gás a fim de ter onde se instalar... São indivíduos que apenas tentam viver com o que resta de dignidade, depois de terem perdido bens e parentes, os poucos que possuíam... Algumas das cenas retratadas deixam o leitor com uma forte sensação de desolação e impotência...



Em uma viagem feita ao Iraque, Sacco recria por meio do quadrinho o cotidiano de soldados no país, os maus tratos sofridos no processo de treinamento pelas tropas que são enviadas para a região. Os riscos das bombas nas estradas fazem parte das tarefas e perigos do dia a dia desses soldados, que a qualquer momento podem ser atacados e ainda precisam lidar com esses mecanismos mortais em suas rondas. Movidos pela promessa de 'heroísmo'  muitos se alistam... mas a realidade vai bem além do que eles supunham antes de chegarem ali... 

Por outro lado, temos os iraquianos que se colocam ao lado das tropas do ocidente, as humilhações e gritos vindo de oficiais superiores... Poucos se 'aproveitam' após as três semanas de treinamento intenso, segundo um oficial... Não importa o lado escolhido, em ambos você vai sofrer e possivelmente morrer...

Em outra parte de Reportagens, Joe Sacco apresenta aos leitores os problemas que imigrantes ilegais sofrem em suas tentativas de abandonar países e regiões que vivem em guerra. O principal exemplo tomado são dos africanos que tentam cruzar o mar Mediterrâneo a fim de chegar a Europa, bem como os perigos que se submetem e que na maioria das vezes são mal-sucedidos. Muitos acabam aportando em Malta [terra natal do autor], mas acabam presos, deportados... há ainda os riscos do deserto, a fome, atravessadores que abandonam os fugitivos em situações calamitosas...

Em tempos de intolerância com imigrantes fugindo em vários pontos do mundo, e figuras políticas autoritárias que destilam ódio, inclusive aqui no Brasil - não é de se espantar que na Ilha de Malta também haja figuras que se adequam a esse papel de extremista. Na figura de Norman Lowell, que defende uma Europa branca falando latim, Hitler é seu herói e os negros são escória, os eritreus não tem chances quando são pegos pela polícia de fronteira. 



A intolerância sofrida por eles pode ser comparada às minorias religiosas de nosso país que lutam por seus direitos contra uma bancada evangélica fundamentalista, ou aos homossexuais que são espancados por ignorantes em redes sociais ou becos e metrôs de cidades como São Paulo, ou como imigrantes senegaleses que são queimados vivos em estados onde ocorre uma forte propaganda racista...[friso que não são todos os habitantes que possuem tal pensamento, mas há que se concordar que no sul do Brasil existe uma parcela significativa de pessoas que destilam tal discriminação e violência], entre outras infâmias que andam acontecendo em nosso país, devido a uma onda crescente de intolerância e propagação de ódio, inflamada em discursos por parte de nazifascistas disfarçados de cidadãos de bem.

Norman Lowell seria o Donald Trump ou o Bolsonaro maltês, que persegue e incute na população maltesa o ódio mal-disfarçado pelos imigrantes africanos, que fogem da guerra em seu continente e que chegam em Malta por infeliz acaso do destino... Tratados como animais, são explorados pelos comerciantes, que não pagam valores justos por seus serviços, e ainda precisam suar muito para conseguir uma refeição ao dia... São inúmeras as dificuldades para se sustentar, vivendo de bicos e esperando o governo dar uma solução digna para eles...



Encerrando a obra, Joe Sacco relata os dias que passou em Kushinagar, na Índia, onde a pobreza é tanta que os dalits escavam buracos de ratos para lhes roubar os grãos, para ter com o que se alimentar...Os musahars, casta considerada ainda mais inferior que os dalit, sofrem com a fome e a corrupção dos líderes de aldeia, que tiram vantagem dos cartões de racionamento distribuídos aos pobres para favorecer a si mesmos... O jornalista não se aprofunda muito nas entrevistas e depoimentos devido a possíveis represálias que pode vir a sofrer por parte destes líderes, etambém seus entrevistados...

Reportagens não é o primeiro quadrinho de Joe Sacco que leio. Mas é o primeiro que trago ao blog, graças a parceria com a Editora Companhia das Letras, que publicou ano passado essa obra crua e sem rodeios, que serve como um relato de guerras e nos leva a refletir em vários aspectos, e acima de tudo - ainda ser gratos por não estarmos [ainda] nas mesmas condições que os indivíduos nela retratados. Que sirva como uma espécie de lição sobre como lidamos com minorias, refugiados, com a pobreza que nos cerca e que nos desperte empatia,  já que não nos resta muito além disso que possa ajudar de fato essas populações em estado de calamidade... Se sentir mal ao ler Reportagens é até um bom sinal: mostra que ainda não perdemos a dignidade que cabe aos seres humanos... 
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