Mulheres que não sabem chorar, de Lilian Farias

| 05 dezembro 2014 | |

Já há um bom tempo eu vinha acompanhando o trabalho da autora Lilian Farias e era louca para ler Mulheres que não sabem chorar. Então qual não foi minha felicidade quando consegui parceria com ela e recebi o livro para resenhá-lo. E é com muita satisfação que trago a vocês, leitores do Torpor Niilista, as impressões que tive ao me deleitar em suas páginas...

Mulheres que não sabem chorar possui uma narrativa fluída, poética, com várias críticas sociais sobre a questão da violência [em vários graus] sofrida pela mulher, e traz como pano de fundo um romance entre duas mulheres. O livro é um romance de entremeios - paixão, erotismo, violência, sofrimento, tristeza e melancolia - formando um panorama interessante aos olhos do leitor... 

Marisa é uma mulher forte e decidida, bem sucedida em seus negócios, mas que para chegar nessa posição, passou por maus bocados na vida. Teve que aprender desde cedo que - ou endurecia seu coração para as rasteiras que a vida lhe dava - ou enlouqueceria e cairia num mar de desalento. Aprendeu a ser forte, e por vezes, cruel. Mas, talvez sem se dar conta, era vítima das convenções sociais... Viúva, tinha um casal de gêmeos, e logo percebeu que o cordão umbilical havia sido cortado, e seus filhos viajam para a Europa deixando-a sozinha...

Olga é uma mulher que sofre com o vício em álcool, abandonada pelo marido com quem teve uma filha - Maria - morta por um câncer há algum tempo... Se entregando ainda mais à bebida, Olga se permite sofrer e ser punida de todas as formas que a vida pode punir, pois acha que a infelicidade que trouxe ao marido e filha são motivos para tal... Olga é violada em sua dignidade todo o tempo, quando vai à rua toda suja e desgrenhada e os vizinhos lhe olham com desprezo, quando vai ao bar da esquina matar a sede viciosa, entre outras coisas...

Marisa e Olga são vizinhas. E inimigas'. Marisa não suporta a presença da bêbada e ao longo de 20 anos cometeu várias situações embaraçosas e humilhantes contra Olga, porém o destino é irônico e coloca ambas as mulheres numa situação de violência em que Olga é salva por Marisa, e suas vidas - já entremeadas antes de maneira inconvencional - se tornam apenas uma, e do improvável surge um relacionamento amoroso...

A partir daí Olga se vê mais forte, com um motivo para não desistir da vida, e ela tenta com todas as forças se tornar uma pessoa melhor. Marisa também, pois deixa a arrogância de lado e passa a viver mais tranquila em seu dia-a-dia... Apesar do envolvimento ser  secreto, por receio do que os vizinhos vão falar, as duas não conseguem parar de se ver, e logo o abuso que Olga sofreu quando foi salva por Marisa ganha outras proporções... 

Rômulo, dono do bar onde Olga bebia e que tentou atacá-la numa noite, não iria parar apenas em Olga. Marisa desconfia que o homem vem assassinando mulheres mas precisa juntar provas para afirmar isto. Daí surgem outros personagens atrelados a Rômulo, atrelados à Olga em seu passado, e de forma indireta, à própria Marisa... Esta precisa impedir que mais mulheres sofram a covardia do machismo, da humilhação que ao sexo 'frágil' é imputada, e é nessa hora que o leitor percebe que o livro vai muito além de um amor homossexual entre duas mulheres na casa dos cinquenta anos... 

Lilian consegue fazer uma mistura interessante de vários aspectos da sociedade de maneira criativa, que incita o leitor a virar as páginas com mais voracidade. Devorei o livro em poucas horas e quando concluí sua leitura, sentir um peso enorme em meu estômago. Estamos tão enraizados nos padrões impostos pela sociedade que muitas vezes, nos desapercebemos que o  horror pelo qual passa a mulher está bem ali à nossa frente. E por vezes, compactuamos com ele de forma inconsciente... Por vezes somos também machistas, não apenas os homens, e é preciso lutar contra isso, precisamos nos libertar das algemas que nos condicionam a viver como eles querem que vivamos, mesmo que tenhamos que sacrificar nossa existência com isso...

Mulheres que não sabem chorar é um grito mudo de consciência pelo papel [importante] da mulher na sociedade. É um convite à reflexão sem parecer auto-ajuda ou piegas e ao mesmo tempo nos presenteia com a sensibilidade de poder escolher pelo que chorar, ou pelo que não chorar também... 

Super recomendada a leitura... 
Até a próxima, e espero que tenham gostado, pessoal...

Onde comprar o seu ~ Saraiva

7 Comentários:

Caroline Porto Says:
05 dezembro, 2014

A história parece ser bem interessante mesmo.. gosto de obras impactantes que prendem a atenção do leitor para temas que não são tão água com açúcar e falam de coisas mais tensas que acontecem no nosso dia a dia. Beijos

Mutações Faíscantes da Porto

Mariana Oliveira Says:
06 dezembro, 2014

A história até parece interessante, mas não é meu padrão de leitura sabe? Mas que bom que você o recebeu e gostou. Beijos.

Jaqueline Felix Says:
12 dezembro, 2014

Acho muito válidas as leituras que fogem do nosso eixo comum e preferido de temas e nos sacodem para a realidade da vida.
Não conhecia essa autora, mas parece que ela consegue ter a coragem de trazer para as páginas do livro as discussões polêmicas que mais envolvem a questão de ser mulher hoje, sem contudo perder a sensibilidade e mantendo um bom ritmo de enredo.

RUDYNALVA Says:
28 abril, 2015

Valéria!
Gosto demais de livros que emocionam e que tem drama, principalmente que enaltecem a mulher e sua luta diária pela vida.
Achei muito interessante o enredo do livro e gostaria de acompanhar todo desenrolar da história.
Parabéns para autora.
Uma semaninha carregadinha de luz e paz!
“Acredite que você pode, assim você já está no meio do caminho.” (Theodore Roosevelt)
Cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

Solange Antuano Says:
29 abril, 2015

Mulheres que não sabem chorar é mais que uma história de amor entre iguais. Junto a estas personagens tão humanas, o leitor vê-se despido dos preconceitos, pudores e medos. Ora crua, ora poética, a trama nos obriga a enfrentar o espelho e se ver como nunca imaginou antes. Pois ao mergulhar neste romance, o que fará você pensar não é a forma como vê o amor, mas sim a forma com que ele se volta em sua direção. Esteja preparado.

beth Says:
02 maio, 2015

A trama é bem envolvente e estou ansiosa pra saber mais deste romance da autora. O título me chamou bastante atenção e pela sinopse e a resenha, sei que vou amar ler.
Beijos.

Marisa Langher Says:
26 maio, 2015

Gostei da temática do livro, bem diferente. Fiquei curiosa para ler mesmo parecendo ser triste.

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De Bukowski a Dostoievski. Ana Cristina César a Lilian Farias. Deleite-se com a poesia de Florbela Espanca e o erotismo de Anaïs Nin...
Aforismos, devaneios, quotes dispersos e impressões literárias...um baú de antiguidades e pós-modernismo. O obscuro, complexo, distópico, inverso... O horror, o amor, a loucura e o veneno de uma alma em busca de liberdade...

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