Hipátia de Alexandria

| 10 dezembro 2017 | 0 Comentários |
Nascida em Alexandria por volta de 370 d.C., Hipátia foi uma matemática e filósofa, além de oradora, filha de um matemático e é considerada uma das mulheres mais importantes na História Antiga, uma das últimas intelectuais a trabalhar na famosa Biblioteca de Alexandria e que teve um fim trágico, devido a inveja e ganância de homens de sua época. 



Maria Dzielska fez uma interessante pesquisa acerca da vida de Hipátia, desde suas influências entre pessoas importantes da cidade até sua morte em 415 d. C. Hipátia ganhou a inimizade de grupos cristãos, embora convivesse em paz com alguns deles, devido a sua formação filosófica classificada como neoplatônica.

"a influência de Hipátia estendia-se a Constantinopla, à Síria e a Cirene. As suas amizades e influências entre funcionários imperiais e figuras da hierarquia da Igreja eram de molde a engendrar inquietações ansiosas entre os seguidores de Cirilo."

Ao longo de pouco mais de cem páginas, com notas explicativas ao final da edição, a autora desvela um panorama sobre a situação de Alexandria naquele período, bem como os ensinamentos passados aos seus discípulos, contextualizando o cenário político-religioso que culminaram em seu assassinato brutal.




Hipátia se dedicou à construção de astrolábios, escreveu comentários a obras clássicas gregas, e provavelmente chegou a conhecer a obra de Ptolomeu. Sua figura era vista como uma ameaça ao governo de Cirilo, bispo de Alexandria, que a enxergava como aliada do governador Orestes e passou a persegui-la, sendo responsável indiretamente por sua morte. 




"Cirilo deve ser considerado em grande medida responsável, ainda que consideremos que o assassinato  foi concebido e executado pelos parabolanos, sem o seu conhecimento. Porque é incontestável que foi ele o principal instigador da campanha difamatória contra Hipátia, fomentando o preconceito e a animosidade contra a filósofa, espalhando o medo perante as consequências das suas alegadas práticas de magia negra, tendo por fim encantar o prefeito, os fiéis da comunidade cristã e, por fim, toda a cidade."

Hipátia tinha uma forte ligação com seu pai, Teón, e em seu lar lhe foram passados ensinamentos e questionamentos acerca do desconhecido. Ela desenvolveu estudos sobre Álgebra, agia como 'conselheira' para estudiosos que a procuravam em busca de solução de problemas matemáticos e tinha conhecimentos na área de Astronomia.

É interessante salientar que a leitura dessa pesquisa realizada por Dzielska faz com que o leitor conheça mais a fundo sobre a vida dessa mulher que deixou sua marca registrada na História. A título de curiosidade ou para fins acadêmicos, é uma boa fonte de informações e descrições daquele período conturbado pelas disputas de poder e hegemonia religiosa, o atrito entre cristãos, judeus e pagãos e serve como objeto de reflexão sobre como a figura feminina  há muito já é vítima de uma sociedade misógina e patriarcal, apesar de Hipátia ter sido por muito tempo um indivíduo respeitado em seu meio, devido às suas contribuições em suas áreas de atuação. 

Existe um filme intitulado Agora que fala sobre a vida da matemática, com Rachel Weisz no papel de Hipátia.

Criaturas da Noite, de Neil Gaiman

| 05 dezembro 2017 | 1 Comentários |
Criaturas da noite é mais um belo trabalho de Neil Gaiman no universo dos quadrinhos que presenteia o leitor com duas histórias curtas que trazem gatos e corujas como animais enigmáticos e ares de sobrenatural.


A primeira história se chama O preço. Um homem apaixonado por gatos e que cuida dos bichanos que aparecem em sua porta, se depara com um Gato preto que logo se mostra dócil, mas que nos dias seguintes aparece todo machucado. Sem saber de onde o gato veio, o dono resolve colocá-lo no porão a fim de lhe tratar os ferimentos. Nesse ínterim, algumas coisas começam a 'desandar' em  sua vida,seja na familia ou em projetos profissionais. Quando ele tira o gato do porão e ele fica solto novamente no terreno da casa, mais uma vez ele aparece nas manhãs seguintes com feridas horrendas, e logo o protagonista descobre a ligação entre seus infortúnios e aquele animal de olhos esverdeados e pêlo negro...


A segunda história intitula-se A filha das corujas. Uma bebê recém-nascida é abandonada num velho convento depois de uma reunião das pessoas do vilarejo sobre o que deveriam fazer com ela, pois a criança foi considerada amaldiçoada. Os anos passam e a menina - ao contrário do que pensavam os moradores da aldeia -  conseguiu sobreviver e se torna uma bela adolescente, embora não tenha contato com seres humanos. É nesse ponto que a maldade humana vai a níveis absurdos e alguns caçadores resolvem se aproveitar da inocência da garota a fim de satisfazer seus desejos asquerosos... Algo inusitado acontece e a natureza da garota se mostra perceptível...


Além do roteiro bem trabalhado, encontramos traços belíssimos que fazem de Criaturas da noite uma excelente leitura com ares sombrios, característicos da obra de Neil Gaiman. Por trás de A filha das corujas, nos deparamos com uma inteligente crítica à hipocrisia religiosa, à moralidade e que culmina num desfecho poético e aterrorizante. O preço é uma ode à altivez e imponência felina, já admirada pelos antigos egípcios em tempos remotos. 

Criaturas da noite é uma excelente pedida para os apaixonados por gatos, corujas, seres fantásticos da noite e fábulas líricas. Apaixonante! 

[Série] nArcos

| 03 dezembro 2017 | 0 Comentários |

Voltando com a coluna Séries aqui no blog, resolvi trazer minhas impressões acerca de nArcos, que trata da história de um dos traficantes mais famosos da Colômbia, Pablo Escobar, e o surgimento do Cartel de Medellin

Original da Netflix, nArcos estreou em 2015 e conta atualmente com 3 temporadas. Mas irei me ater aos acontecimentos da primeira, que foi até onde eu assisti [por enquanto]... Wagner Moura dá vida ao personagem Pablo e os dez episódios iniciais contam toda sua trajetória na criação do Cartel, a perseguição de agentes da DEA para sua captura e o envolvimento com parceiros do crime, além de seus inimigos. 



Conhecemos a vida pessoal de Pablo, a constituição de sua família, o prestígio que tinha entre a população colombiana e sua derrocada depois de acontecimentos trágicos e brutais. Em paralelo, existe uma operação por parte dos Estados Unidos aliados ao governo colombiano para tentar capturar o narcotraficante. Violência, mortes, brutalidade, negociações, corrupção rolam soltas no decorrer da série. Passamos a entender o funcionamento de tais organizações, desde o preparo da droga até ela chegar ao nariz de seus consumidores... Trata-se de uma verdadeira teia que enreda desde crianças da periferia de Medellin a membros importantes da alta cúpula do governo e polícia.

A esperança de viver dias melhores faz com que pessoas inocentes se sacrifiquem em prol da causa de Escobar. Alianças são formadas, parcerias são violentamente quebradas e a lavagem de dinheiro corre solta, além de sequestros e atentados terroristas. 

Além do já conhecido Wagner  Moura, contamos com nomes como Pedro Pascal, que interpreta o agente da DEA Javier Peña e Alberto Ammann, como Pacho Herrera, inimigo de Escobar e líder do Cartel de Calí. Dirigida pelo cineasta brasileiro José  Padilha, nArcos é uma série americana, de co-produção colombiana e chegou a ser indicada aos prêmios Globo de Ouro 2016 nas categorias Melhor ator em série dramática e Melhor série de Televisão - Drama. 

nArcos é indicada para aqueles que gostam de uma boa trama policial, repleta de intrigas, violência e drama. Traz um enredo que promete verdadeiros momentos de tensão e um desfecho alucinante... 

Recomendo!


A noite da espera, primeiro livro da trilogia O lugar mais sombrio, do manauense Milton Hatoum

| 01 dezembro 2017 | 5 Comentários |
Recentemente lançado pela Companhia das Letras,  o primeiro livro da trilogia O lugar mais sombrio, do escritor manauense Milton Hatoum é um romance de formação ambientado na época da Ditadura militar aqui no Brasil. A noite da espera é sobre os anos em que o personagem Martin passa a viver com o pai em Brasilia, após a separação deste com sua mãe, que havia deixado o casamento para viver um amor com um artista. 


O narrador nos relata suas memórias durante esse período, seus amores, o contexto político que fervia no país naqueles anos, bem como o envolvimento de seus amigos com a revolução anti-militarista. Conhecemos a vida de Martin pelo seu ponto de vista desde os anos de escola até o momento em que ele ingressa na faculdade. 

A Tribo de Brasília foi seu 'lar' por muito tempo durante os anos vividos na capital do cerrado. A  truculência que permeava o seu cotidiano, a angústia de estar distante da mãe e esperar por alguma carta sua e a falta de afeto e difícil convivência com seu pai são os principais motivos da desilusão vivida pelo protagonista. 

A escrita de Milton Hatoum é fluída e transcorre de maneira a envolver o leitor até o desfecho, que - por se tratar de uma trilogia - fica em aberto, com o costumeiro gancho para sua continuação... Martin vai viver em Paris e suas memórias são revolvidas a partir desse momento, enquanto o livro mescla passado e presente, além de situações contadas através de cartas de alguns de seus amigos... 
A noite da espera foi minha primeira experiência com a obra de Hatoum e certamente serviu como porta de entrada para suas outras publicações. Nota-se a incrível habilidade do autor em retratar os Anos de Chumbo em conjunto com os dramas adolescentes de um personagem que se sente perdido em meio ao caos da época - não apenas pela situação do país, mas em suas próprias revoluções pessoais...

Soco no estômago. Travo amargo. Engolir em seco' da literatura contemporânea brasileira... 

A beleza na Antologia poética de Lêdo Ivo...

| 30 novembro 2017 | 8 Comentários |
"Ao amor, como ao banho
deve-se ir nu."

Lêdo Ivo é um dos grandes nomes da poesia alagoana e com seus versos impregnados de melancolia traça uma verdadeira ode ao amor. Em sua Antologia Poética, organizada por Walmir Ayala e publicada pela Editora Nova Fronteira, conhecemos um pouco da incrível obra do homem que foi crítico, poeta, ensaísta e romancista. 


Com inspirações que vão de Rilke a Rimbaud, a densidade dos seus versos se revela com um lirismo que beira o palpável, e que mescla-se de maneira homogênea à uma ordem estrutural metódica, aliando com esmero o harmônico e o caótico. 

"Seja o amor como o tempo - não se gaste
e, se gasto, renasça, noite clara
que acolhe a treva, e é clara novamente."

Lêdo nasceu em Maceió - capital alagoana - no ano de 1924. Estreou na literatura vinte anos depois, com o livro As imaginações, bastante elogiado pela crítica da época. Eleito para ocupar um lugar na Academia Brasileira de Letras e formado em Direito pela Faculdade Nacional, Lêdo viajou pelo mundo apresentando sua obra, chegando a ganhar prêmios nacionais e tendo parte de suas publicações lançadas e traduzidas em outros países. 

Antologia Poética tem um quê de luz em meio a melancolia sombria de seus poemas. Lêdo é um dos poetas que mais exprimem a essência dos anos 1940 na literatura moderna nacional, e além do amor, sua obra também abarca a contemplação a Deus, a beleza do cotidiano e ao sonho. 


Ler o verso de Ivo me fez entender o verdadeiro sentido da plenitude na poesia. Um encanto.  
A singela beleza do deixar-se eternizar... 


"Muda-se a noite em dia porque existes,
Feminina e total entre os meus braços,
como dois mundos gêmeos num só astro."

[HQ] Notas sobre Gaza, de Joe Sacco

| 29 novembro 2017 | 20 Comentários |
Devo ter um instinto masoquista dentro de mim que não desiste de leituras densas de fatos reais causados pelos conflitos de guerra. Acredito que seja minha porção historiadora que sempre se recusa a ignorar nossa situação política a nível global... E apesar de trazer as impressões acerca de uma obra que aborda acontecimentos de décadas atrás, é inegável que tais acontecimentos se refletem até a atualidade nas áreas descritas na história. 


Notas sobre Gaza me chegou em mãos graças a parceria com a Editora Companhia das Letras, pelo selo Quadrinhos na Cia, e trata-se de uma verdadeira pesquisa realizada pelo jornalista maltês Joe Sacco, que possui outros quadrinhos do gênero, cobrindo matérias em várias partes do Globo, mostrando um lado que geralmente é ocultado pela mídia ocidental. 

É uma história que narra acontecimentos ocorridos no ano de 1956 na região de Gaza, através de depoimentos de pessoas que vivenciaram o horror dos massacres contra os árabes por parte dos soldados israelenses. Na verdade, dois acontecimentos históricos são abordados em Notas sobre Gaza: o primeiro deles nas cidades de Khan Younis e Rafah, onde centenas de civis foram assassinados durante uma incursão militar que seria divulgada apenas como uma operação para capturar guerrilheiros palestinos, como de costume. Segundo os dados recolhidos nos relatórios da ONU, a situação saiu de controle porque os soldados se depararam com uma multidão que tentava fugir. A versão do primeiro-ministro israelense é que houve um confronto com rebeldes armados e por isso se deu o embate. Curioso ressaltar que do lado israelense não houve uma baixa sequer...


Até os dias de hoje a população palestina vem sofrendo com perseguições políticas e de cunho religioso e a faixa de Gaza se revela um verdadeiro barril de pólvora devido aos conflitos existentes entre palestinos e judeus. Sacco adentrou no cotidiano de refugiados, pessoas que perderam seus lares e parentes, recolhendo histórias e fazendo uma análise documental, certificando-se que as versões estariam mais próximas possíveis da realidade dos acontecimentos. Por se tratar de oralidade e memória, muitos fatos precisavam ser verificados e depoimentos conferidos com outros para se atestar a veracidade dos dados e informações. 

Com um traço bastante característico já conhecido em suas outras obras, Sacco disponibiliza um panorama dolorido do cotidiano de civis que convivem diariamente com o medo e que sobrevivem a duras penas num ambiente hostil e repleto de dificuldades, onde a população é execrada e minada pela violência das abordagens do exército, pela falta de saneamento básico, alimentação e água, elementos básicos para se viver com dignidade. 

Mesclando passado e futuro, algumas analogias são feitas em cenários que testemunharam chacinas do povo palestino e que atualmente - senão pela memória preservada dos moradores antigos - seriam apenas locais onde hoje as pessoas esperam numa fila qualquer por algum serviço público, sem sequer imaginar que anos antes, tais locais foram palco de morte e humilhação. Algumas cenas retratadas no quadrinho são fortes e perturbadoras, levando um leitor mais sensível a ter o estômago revirado e o sentimento de angústia e indignação saltando pela boca...


Através de uma linguagem simples aliada a desenhos de fácil compreensão, a obra em momento algum pode ser classificada como rasa por causa dessas características. Ao contrário, sua linguagem sem ares acadêmicos possui o que uma matéria de jornal precisa ter para impactar o leitor/espectador: objetividade e foco nos pontos centrais que tecem o panorama da noticia. Fugindo do sensacionalismo, Sacco choca com sua linguagem crua e sem preâmbulos. É o fato puro e simples, sem recortes grotescos ou falsa neutralidade. 

Toques de recolher, homens retirados à força de suas casas na presença de suas famílias, valas cavadas para enterros coletivos, demolições, ataques suicidas de homens-bomba, fome, falta de perspectiva futura e caos são algumas das condições impostas aos palestinos que habitam a Faixa de Gaza. O próprio jornalista se viu em apuros em determinadas situações, que poderiam ter saído de controle e causado sua morte apenas por estar acompanhado dos perseguidos pela munição israelense... 


Ao fim do volume de mais de 400 páginas, temos um apêndice com informações extras e fontes utilizadas pelo autor para dar maior base à sua pesquisa. Pesquisar, desenhar, roteirizar, ambientar e contextualizar esse compilado mostra o esmero de Sacco em nos mostrar um trabalho sério e responsável sobre um capítulo de nossa História que - infelizmente - ainda está longe de receber um ponto final, e que se repete num conflito que dura séculos e traz a desgraça de muitos civis até hoje, asseverando o velho e certeiro ditado de que A História é cíclica, e que se não aprendemos com ela, ela tende a se repetir de maneira trágica...

╬† 13 melhores Contos de Vampiros da Literatura universal ╬†

| 27 novembro 2017 | 11 Comentários |
Finalizei a leitura do livro 13 dos melhores contos de Vampiros da Literatura Universal, compilados por Flávio Moreira da Costa e publicado pela Ediouro com um misto de tristeza por ter que me despedir de histórias tão intrincadas e envolventes dos seres que povoam meus sonhos e imaginário desde tempos remotos de minha infância... Desde criança sou fascinada por tais criaturas e os contos escolhidos para compor esse livro carregam a verdadeira essência do que os vampiros são na minha visão... 


De autores contemporâneos como Anne Rice aos mais clássicos como Sheridan Le Fannu e Montague Rhodes James, as histórias encontradas aqui trazem em comum um elemento de narrativa rica em detalhes que assombra o leitor e nos permite visualizar cada nuance de cena, como num filme de horror clássico dos anos 1930. 


O conto que dá abertura ao livro é de um autor anônimo, sabe-se que alemão, que conta a história que serviu de modelo para outros que surgiram depois, inclusive o famoso Dracula, de Bram Stoker. Há um conto do autor na antologia, intitulado O hóspede de Drácula, que na verdade é um capítulo 
pertencente ao original Dracula mas que acabou sendo descartado da edição final, mas que pode ser lido independente da obra máxima do autor...


Temos um conto moderno com ares de ficção científica do autor Richard Matheson, intitulado Eu sou a lenda, que deu origem a versões cinematográficas, sobre um homem que luta para sobreviver em meio ao caos de uma cidade [ou mundo inteiro] repleto de criaturas sedentas de sangue humano, e o personagem provavelmente é o último ser vivo de que se tem notícia... 

Carmilla é um clássico que mereceu uma resenha à parte aqui no blog. Para mais detalhes, clique aqui. Os contos presentes no livro foram escritos em períodos diferentes e em lugares variados, e incrivelmente possuem certa unidade cultural. O macabro aliado ao bizarro e assustador se fazem presentes, numa mescla de passagens horripilantes, sedutoras e convidativas. A sexualidade envolvente, o requinte com ares de decadência e os amores que desafiam as leis mortais são elementos-chave para a construção de tais narrativas. 


Os vampiros nos causam repulsa, fascínio e paixão por seus mistérios e encantos diabólicos. E um verdadeiro banquete de tais sensações perturbadoras nos saúdam neste livro...


Uma história de Kafka em versão quadrinhos - Na colônia penal

| 23 novembro 2017 | 16 Comentários |
Na colônia penal em quadrinhos se trata de uma adaptação da novela de mesmo nome escrita por Franz Kafka em 1919. Publicado pelo selo da Companhia das Letras Quadrinhos na Cia - possui roteiro de Sylvain Ricard e é ricamente ilustrado por Maël, ambos franceses. 


O enredo é sobre um viajante que durante uma visita a uma colônia penal se depara com um método de sentença e execução através de uma máquina, que escreve no corpo do condenado a sua sentença, com agulhas lhe perfurando a carne até a sua morte depois de várias horas. Chocado com as descrições de funcionamento da máquina, o protagonista se vê ainda mais abismado com o entusiasmo com que o oficial fala sobre a máquina e a maneira de julgamento e punição do preso.

Possuidora de uma narrativa intensa, apesar de se tratar de um texto adaptado para quadrinhos, podemos perceber nele uma crítica cruel sobre a sociedade do sadismo, da falta de humanidade e regojizo no sofrimento alheio. Logo, o leitor se vê consternado com o preso que, na HQ, aparentemente não cometeu crime que levasse a esse tipo de condenação brutal. 


A Justiça entra em xeque em meio a narrativa. A que ponto o ser Humano é capaz de julgar e sentenciar um outro indivíduo a sofrimentos indizíveis pelo fato de se achar superior a moral e bons costumes? A convicção do oficial em se achar apto a prescrever o julgamento e fazer justiça beira a megalomania. 

O traço de Maël é bastante expressivo e em algumas sequências os diálogos são dispensáveis. O próprio desenho conduz o leitor pela história, deixando-nos perturbados perante a perfidez e frieza humana. Em dado momento, o oficial, buscando a aprovação do visitante da colônia chega a se lastimar pelo fato de não haver platéia para o que ele julga ser um verdadeiro espetáculo de entretenimento: o sofrimento até a morte do marginalizado. O personagem, inclusive, desconhece seu destino nefasto até o momento em que é posto na máquina e ele passa a compreender seu funcionamento. A "Justiça" não lhe deu chances de defesa, conhecimento de causa ou qualquer outro elemento que lhe dê oportunidade de dar a conhecer o seu lado na história.



Em suma, Na colônia penal de Franz Kafka é um verdadeiro mergulho na covardia e indiferença do Homem, e que levanta questionamentos acerca do filosófico, psicológico e social. Uma bela obra-prima, impactante e que certamente vai tirar o leitor de sua zona de conforto...

Memórias de o que já não será, de Aldyr Garcia Schlee...

| 21 novembro 2017 | 14 Comentários |
"Hoje, levo por todo o meu ser teu resplendor de primavera; e tremo se tua mão toca a fechadura e bendigo a  noite soluçante e escura em que floresceu em minha vida tua boca tão arteira."
Um inexcedível perfume.

Memórias de o que já não será é composto de quinze contos do autor Aldyr Garcia Schlee e mergulhamos em sua narrativa em histórias de acontecimentos que se perderam no tempo, memórias revolvidas de situações que foram e jã não são, cenários que se perdem e que se eternizam no imaginário. 


São histórias ambientadas na fronteira do Brasil com o Uruguai, onde o coloquialismo se faz presente, inserindo o leitor no universo dos amanheceres dos pampas. Minha experiência inicial com Aldyr se deu de maneira leve, como um suspiro...

O autor nasceu em Jaguarão e possui vários livros de contos publicados, além de um romance. Sua obra é publicada tanto em português como em espanhol. Ganhador de alguns prêmios literários, é jornalista com doutorado em Ciências Humanas. 

Memórias é uma obra-ícone de fronteira. Identidade cultural e relações fronteiriças são o ponto forte de sua narrativa. Aldyr é detentor de uma escrita arrojada e bucólica, que remete à memórias guardadas no inconsciente. Ler sua obra é resgatar pormenores esquecidos de infância, de tempos longínquos, que por vezes se confundem com o que foi vivido e com o que gostaria de se ter vivido...

"Ouviram o silêncio interminável de suas próprias vozes mudas gritando por ajuda, clamando por qualquer coisa que lhes permitisse passar adiante, viver outro dia, viver enfim como se vive nos sonhos acordados em que tudo só acontece como se quer e porque se quer que aconteça." 

Memórias de o que já não será é uma publicação da Editora Ardotempo, lançado em 2014. Amanhã, 22 de novembro - é o aniversário do autor...

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Para educar crianças feministas - Um manifesto

| 20 novembro 2017 | 7 Comentários |
A resenha da vez é sobre o livro Para educar crianças feministas - Um manifesto, de autoria da aclamada Chimamanda Ngozi Adichie, nigeriana autora do best-seller Americanah e Hibisco Roxo, publicada pela Editora Companhia das Letras.

A obra na verdade, é um texto em formato de carta da própria Chimamanda para uma amiga que havia se tornado mãe de uma menina. O livro traz algumas lições simples de como se educar uma criança numa sociedade machista e misógina, a fim de emponderar as meninas e fazer com que os meninos cresçam respeitando as mulheres. 

Chimamanda coloca em pauta os papéis de gênero, dá exemplos de situações que aconteceram com ela e que poderiam ter sido diferentes, mostra que a mulher precisa acima de tudo amar o que faz a fim de dar exemplo aos seus filhos e que não se deve colocar a educação de uma criança como sendo algo exclusivo da mãe. O pai tem responsabilidade igual, e além do fato de não poder amamentar um bebê, todo o resto deve ser compartilhado, para que não pese a responsabilidade apenas na mulher da família.

É necessário que a mulher deixe de lado o condicionamento a que foi submetida desde a infância de que ela é a única a prover as necessidades dos filhos. Que o pai não tem que ser parabenizado por algo que deveria ser natural ele fazer: criar um filho. Cuidar dos filhos não é território materno, os pais precisam ter uma presença mais ativa na vida da criança. 

Não é porque se é menina que algo não pode ser feito por você. Não existem tarefas que só meninas devem executar. O casamento não é a única coisa que toda mulher almeja na vida. Algumas nem querem. E não tem nada de errado ou esquisito nisso. É importante estimular a criatividade da menina desde cedo para que ela escolha o que deve ser quando tornar-se adulta. 

O livro é uma leitura rápida e fluída, e pode ser lido por qualquer pessoa, jovem, adolescente, homem ou mulher. É interessante estar atento a algumas generalizações que a autora faz com relação a cultura, e questionar tais apontamentos colocados por ela ao longo da leitura. De qualquer forma, trata-se de um texto importante e que traz um debate que deve sempre estar em foco...



Negrinha

| 19 novembro 2017 | 9 Comentários |
A HQ Negrinha foi desenvolvida a partir do olhar de um francês com descendência de mãe brasileira chamado Jean-Christophe Camus, e ilustrada por Olivier Tallec, publicada pela Editora Desiderata.

Negrinha retrata os contrastes da cidade do Rio de Janeiro, do morro pobre ao apartamento em bairro de luxo, e da relação social-econômica entre negros e brancos. Nesse contexto, conhecemos a menina Maria de apenas 13 anos, filha de uma negra mas que - por possuir uma pele mais clara, não sofre entre suas colegas de escola o preconceito já tão naturalizado em ambientes 'de brancos' frequentados por negros. 

A mãe de Maria trabalha bastante para que nada falte a sua filha, e evita contato com suas origens. Mas um dia, ela precisa subir o morro do Cantagalo levando a menina, que descobre seus parentes, seus cotidianos e cultura. Sua mãe não faz por mal, mas em plenos anos 1950, é difícil assumir sua identidade perante uma sociedade recém saída da escravidão. 


A HQ retrata um amor adolescente, aspectos religiosos e culturais, a violência perpetrada contra os negros, através de personagens que desvelam bem o dia a dia carioca da época: o vendedor de amendoim, a dondoca rica de vida vazia e fútil, e até o famoso sambista Cartola, que faz uma pequena e significante participação na história...

Em tons de azul, amarelo e cinza, Negrinha é uma obra que põe o leitor em reflexão, e pode ser considerada atemporal, além de nos brindar com uma verdadeira viagem a metade do século XX. Conhecemos o cenário da ex-capital do Império há pouco transformada em República. A descoberta da protagonista sobre suas raízes, de maneira natural e crua, mas que possui um quê de poético em sua composição. É uma obra tocante e sensível, que cativa e nos faz sentir pertencentes ao universo de Maria. 


Como nasceu a alegria, por Rubem Alves

| 18 novembro 2017 | 10 Comentários |
Em algum momento eu já falei nesse blog o quanto a escrita de Rubem Alves me enternece. Conheci sua obra através de leituras voltadas para o público infantil mas que servem facilmente para deixar os adultos refletindo, e não poderia ser diferente no livro Como nasceu a alegria.

As pessoas, em sua maioria, costumam evitar determinados assuntos com crianças, a fim de lhes poupar dissabores tão cedo. Mas isso não significa que as crianças não sintam medos profundos, confusos e sem nexo. Os adultos acham que falar apenas no lado bom e feliz da vida resolve alguma coisa. Eu penso que não. 

Nas curtas estórias de Rubem Alves, a exemplo desse título, o autor dá símbolos para que os pequenos falem sobre seus medos. Discorram sobre eles, aprendam com eles para só assim conseguir enfrentá-los, ou em alguns casos, suportá-los quando inevitáveis. 

Uma flor com uma pétala cortada por um espinho. Crescendo num jardim onde só haviam flores perfeitas e intactas. Seguindo a ordem natural das coisas, a natureza conspira e trabalha para que nada desequilibre o ambiente. Os anjos e animais têm suas tarefas diárias a fim de manter a harmonia nos jardins. 


Flores vaidosas, cheias de si, sem cortes ou arranhões para lhes tirar a bela aparência. Todas acreditavam ser a mais perfeita entre as outras. A vaidade as impedia de ouvir a opinião de suas companheiras. Belas mas vazias. A flor de pétala cortada não se incomodava com sua pequena 'imperfeição.' Vivia feliz e alheia àquele detalhe, pois não lhe doía. Mas as outras flores passaram a vê-la de forma esquisita, ao ponto dela começar a se enxergar esquisita, à margem das demais. Sendo assim, a tristeza lhe invadiu e ela chorou. 

Suas lágrimas desencadearam uma sequência de acontecimentos envolvendo outros seres da natureza. A tristeza da flor chegou até Deus. E tudo foi surgindo a partir dali... As coisas iam se moldando e a florinha nunca pensou que todos se compadeceriam dela... E um belo e emocionante milagre aconteceu.

A alegria surgiu da tristeza, do choro, da superação. Da importância de se querer bem e de enxergar o quanto as pessoas que amamos nos amam também. É a elas que devemos ouvir, e não a um punhado de seres que não suportam nossa aceitação e felicidade. Deixar doer para saber florir... E deixar nosso perfume se espalhar pelo mundo, atraindo a alegria para perto da gente...


Memória de minhas putas tristes

| 16 novembro 2017 | 12 Comentários |
"No ano dos meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem."

Eis a premissa que dá inicio a essa deliciosa e envolvente leitura do grande escritor colombiano Gabriel García Márquez. Memória de minhas putas tristes é um relato delicado, por vezes divertido de um narrador no auge de sua velhice, que resolve se aventurar com uma desconhecida, a fim de se presentear com sexo no aniversário de noventa anos. Mas algo inusitado acontece e ao ver a garota dormindo na cama fica com receio de acordá-la, e acaba por se apaixonar por ela...

Ao longo da narrativa, vamos acompanhando a trajetória desse 'romance' e o cotidiano do protagonista, que mesmo em idade tão avançada, possui um espírito jovem e por vezes impetuoso. Cronista de um jornal, sua vida foi regada a sexo e prazeres, e a essa altura da vida acaba por descobrir o amor.

Ao conhecer Delgadina, ele se dá conta que dormir ao lado de quem se ama sem necessariamente ter contato sexual pode lhe trazer consolo e felicidade. Memória de  minhas putas tristes nos coloca em reflexão acerca do que é ser velho. Envelhecer não é um problema para o protagonista, ele mostra que a vida não acabou quando alcançamos a 'terceira idade.' Enquanto se respira, ainda há muito a se aproveitar da vida...

Ele descobriu novos significados que valeram por uma vida inteira antes de conhecer a adolescente adormecida num quarto de bordel. O livro é uma ode à existência e ao amor. Depois de anos desperdiçados em festas e fugindo de amores, deitando com prostitutas que ele poderia descartar no momento seguinte, Delgadina lhe traz um sentido para continuar vivendo.

A escrita poderosa de Gabo é fluída e cativante. Capítulo por capítulo, somos surpreendidos com um sentimento de torcida para que haja a consumação do amor que abrasa o coração do velho jornalista. O amor que ele passa a nutrir pela adolescente é a 'cereja do bolo' de sua vida. Ele redescobre o amor por si mesmo, pelo vigor que a idade avançada não lhe tirou e nos envolve com a ternura que despeja sobre o corpo nu e entorpecido de Delgadina...

Memória de minhas putas tristes é encanto, é a escrita de Gabriel refinada e com sabor de sonho e céu azul... é o amor, puro e simplesmente possível de acontecer em momentos de nossa jornada que já não julgávamos possível... e ele vem, e brota. nos torna vivos novamente...



Caixa de Correio Outubro/2017

| 14 novembro 2017 | 8 Comentários |
E mais uma vez acabei atrasando a caixa do correio... confesso que ando meio preguiçosa para postar essa coluna e pretendo mostrar os recebidos do mês em formato de vídeo, pra dar uma movimentada no canal do blog, o que acham da ideia? Mas por enquanto, vai saindo no formato convencional... 

Em outubro consegui comprar alguns títulos bem interessantes. Teve bienal do livro aqui em Pernambuco, então aproveitei as promoções para adquirir obras que há muito estavam em minha lista de desejados... Eis o que andei acrescentando ao acervo...



 Fiz as compras acima na banca de revistas aqui da cidade. Esses dias sai resenha do livro de Chimamanda aqui pra vocês...

Andei comprando algumas obras no Sebo do Dedê, como de praxe. Vieram húngaros, Rubem Alves, quadrinhos, histórias infantis... alguns já foram lidos e as resenhas serão publicadas aos poucos... aguardem...



No primeiro dia que visitei a Bienal comprei mangás de Peach Girl, a biografia do Joy Division, livros sobre cinema e quadrinhos. Confira as resenhas de Os Bórgias e O fotógrafo volume um nas postagens de novembro...


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 As compras que fiz no estande da CEPE editora mereciam destaque especial. Acabei ganhando um bloco de anotações como brinde, além de marcadores. Por indicação de um amigo, comprei O massacre da Granja São Bento e por recomendação de outras pessoas, trouxe os livros Viagem ao Brasil, A recriação do paraíso, Mobilidade urbana no Recife e seus arredores e Ruas sobre as águas. Todos os títulos são de minha área acadêmica, História...



Visitei a bienal em seu último dia e acabei garimpando relíquias por preços bem em conta... Veio Carlos Fuentes, Julio Cortázar, Michel Laub, Dalton Trevisan, Dias Gomes, Cassandra Rios, Fátima Quintas, entre outras preciosidades...



Mais uma visita ao sebo me rendeu edições como As flores do mal, Os cus de Judas, alguns quadrinhos e Índios e jesuítas nos tempos das missões...


Ganhei de uma colega de trabalho um exemplar de Auto de São Lourenço, do Padre Antônio Vieira. Há muito foi lido, mas pretendo realizar uma breve releitura a fim de expor meus comentários sobre a obra aqui no TN...



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Consegui no sebo [novamente] os livros Don Frutos e Viagem ao redor da lua. Assim que ler, resenho para vocês...


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Ganhei do meu amigo sebeiro o livro infantil Como nasceu a alegria, do meu querido Rubem Alves. Li na infância e pude revisitar seus versos e me encantar novamente com suas reflexões...



Fechando o mês com a Chave Mestra adquiri os livros Folhas na relva, de Walt Whitman e dois títulos de Gabriel García Márquez: Doze contos peregrinos e Memória de minhas putas tristes. Este último já foi lido e logo sai o post falando sobre ele por aqui...

O que eu consegui hoje numa troca no sebo... #folhasderelva #waltwhitman #martinclaret #sérieouro #poetry #leavesofgrass

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Já ia esquecendo: a compra que fiz na Estante Virtual, do livro A tela demoníaca. Trata-se de um livro que fala sobre o Cinema Expressionista que eu li na época de faculdade, quando paguei uma cadeira sobre História do Cinema... Vale a releitura pra ser comentado...





Vocês já devem estar enjoados de tanta coisa mas ainda tem um mangá de FullMetal Alchemist comprado na banca de revistas... Juro! Esse é o último do post ehhhee




Então... FIM. Espero que tenham gostado. Me contem nos comentários quais desses vocês gostariam de ver resenhados... Beijos e até a próxima ;)




Escritos em verbal de ave

| 13 novembro 2017 | 20 Comentários |
A poesia se despedia de Manoel de Barros em 13 de novembro de 2014. Mas seus versos se imortalizaram devido ao seu talento em nos contar histórias. Escritos em verbal de ave é uma obra singular, que trata com lirismo sobre um tema delicado e triste: a morte. 




Bernardo é uma criança, já conhecida dos leitores de Manoel em outros de seus textos. Mas nessa obra em questão, estamos a nos despedir do menino Bernardo. De maneira sutil e poética, a criança se vai para sempre. Impossível não sentir um oco no peito a cada frase do livro, que se esvai como a vida rumo ao seu fim...

"Deixamos Bernardo de manhã
em sua sepultura
De tarde o deserto já estava em nós."

Publicado pela Editora Leya, o livro possui uma diagramação e formatos peculiares. Apesar de ser um texto breve, de apenas 14 páginas, nos presenteia com aforismos e ilustrações que parecem nos levar a adentrar num sonho. Conhecemos a alma de Bernardo, de Manoel e encontramos a nossa própria entre os delírios do livro...

"Pedaço de mosca no chão:
meu abandono!"

Escritos em verbal de ave toca, comove, enternece, embriaga. É a voz de Manoel nos saudando 'do outro lado', despedindo-se junto com o entardecer que presenciamos dia após dia...



O segredo de Heap House

| 11 novembro 2017 | 6 Comentários |
Recentemente lançado pela Bertrand Brasil, O segredo de Heap House é uma fantasia juvenil que conta a história de uma mansão estranha, localizada sobre um mar de itens perdidos coletados na cidade de Londres. Esse local é chamado de Cúmulos, e estranhos e bizarros personagens convivem entre suas paredes divididos em duas categorias: os Iremonger puro-sangue e os Iremonger mestiços, que servem de criados para os puro-sangue, que habitam a parte superior de Heap House, enquanto para os mestiços sobram os subterrâneos. 


Cada personagem possui um objeto de nascença, e devem cuidar muito bem dele. Algo grave pode acontecer caso você venha a perder seu objeto... Clod é um Iremonger com a incrível capacidade de ouvir os nomes dos objetos de todos que habitam a mansão. Seu objeto é um tampão chamado James Henry Hayward. Clod percebe que existe no sótão da mansão um objeto que grita de maneira feroz o nome Robert Burrington, mas o motivo de sua ira o pequeno Clod desconhece... 

Surge em sua vida uma pequena orfã chamada Lucy Pennant, que é designada a serviçal mas se recusa a seguir as regras que lhe são condicionadas. A curiosidade em explorar os locais inacessíveis para pessoas como ela faz com que ela encontre Clod e uma proibida amizade surge entre os dois. Mas tocar num puro-sangue é contra as regras, Lucy pode se arrepender amargamente disso...

A própria mansão ganha ares de personagem, com suas enormes escadarias, passagens secretas, sua arquitetura labiríntica e as criaturas peculiares que ali habitam. Uma tempestade se forma no exterior de Heap House e os Cúmulos parecem transbordar ameaçadoramente, causando o caos entre os moradores da mansão...

Escrito por Edward Carey, o livro conta também com ilustrações do autor a cada capítulo, ajudando o leitor a identificar melhor os vários personagens da história. Trata-se do primeiro volume da trilogia Crônicas da Família Iremonger e pode agradar alguns leitores que apreciam histórias com certo clima mórbido mesclado a elementos de Fantasia. Alguns porque eu particularmente não me senti apegada ao roteiro, nem a narrativa dos personagens e os elementos sombrios da trama me soaram demais superficiais. Mas trata-se de uma questão minha, por não me conectar com a obra como um todo...

Em suma, pode agradar ou não. Pra mim, beirou o 'entediável'. Foi sofrido concluir a história. Mas certamente pode ser uma boa e interessante leitura para quem se envolver em sua estranheza...


Uma história no Afeganistão contada por um fotógrafo francês...

| 08 novembro 2017 | 7 Comentários |
O fotógrafo - Uma história no Afeganistão é uma HQ publicada pela Editora Conrad e que num misto de ilustrações e fotografia, mostra o relato do fotógrafo francês Didier Lefèvre, que passou um tempo acompanhando uma equipe do Médicos sem Fronteiras pelas regiões áridas do Afeganistão, no ano de 1986. 


A experiência de Lefèvre foi de tal modo intensa que ele decidiu compartilhar com o mundo as fotografias tiradas ao longo do percurso, agregadas ao texto e desenho de Emmanuel Guibert e as cores e diagramação de Frédéric Lemercier. O fotógrafo desvela ao leitor um cenário de pobreza extrema, guerra e caos, onde os civis tentam se proteger dos ataques soviéticos. 

O diferencial que a obra nos traz, dividida em três volumes, é a visão distante do maniqueísmo que a mídia nos 'empurra goela abaixo', fugindo por completo do modo tradicional de se fazer o jornalismo de áreas de conflito. Ao longo das pouco mais de 80 páginas do primeiro volume, visualizamos os diálogos, costumes, cotidiano e expressões fortes e sofridas das pessoas com quem Didier conviveu, bem como o trabalho de tratar os doentes que encontravam pelo caminho e as agruras de sobreviver em ambiente tão inóspito e que ao mesmo tempo, carrega uma singular beleza natural.

As fotografias são bem expressivas e registraram cenas marcantes da expedição, momentos tensos de perigo e olhos de passantes desprovidos de esperança... Infelizmente ainda não possuo os dois livros seguintes mas trarei ambos aqui assim que tiver oportunidade. O fotógrafo nos revela uma cultura tão antiga e oposta a do Ocidente, que nos parece tão distante mas ainda assim, consegue despertar um fascínio perturbador em quem se aventura por suas páginas.


Aura, de Carlos Fuentes - mais um latino para amar...

| 05 novembro 2017 | 10 Comentários |
"Afinal você poderá ver esses olhos de mar que fluem, viram espuma, voltam à calma verde, tornam a inflamar-se como uma onda: você os vê e repete para consigo mesmo que não é verdade, que são uns belos olhos verdes idênticos a todos os belos olhos verdes que você conheceu ou poderá conhecer. Entretanto, você não se engana: esses olhos fluem, transformam-se, como se lhe oferecessem uma paisagem que só você pode adivinhar e desejar."

Aura foi minha estreia na escrita do autor panamenho naturalizado mexicano Carlos Fuentes. Trata-se de uma ficção com ares de novela, que traz uma história cheia de expressividade e fluidez narrativa. O protagonista é levado para um emprego estranho, numa casa estranha com uma contratante já idosa que mora com uma sobrinha. A garota logo chama a atenção do Senhor Montero, que a cada dia se vê mais enfeitiçado por ela e pela aura que permeia as sombras daquela residência.


A obra tem uma narrativa em segunda pessoa, inserindo o leitor mais profundamente aos anseios e questionamentos de Montero. O personagem se perde em seus próprios devaneios e a todo momento o leitor se pergunta se o que ele vive é irreal ou tangível. 

Dono de uma poderosa escrita, Carlos Fuentes nos transporta à fronteira entre o sonho e o lúcido, numa espécie de torpor lírico em busca de respostas que culminam num desfecho inesperado e perturbador. 

Aura foi publicado aqui no Brasil pela L&PM Editores numa singela edição de bolso. Comprei o livro na Bienal do Livro mês passado, aqui em Pernambuco. Fez valer [muito] a pena o garimpo que fiz entre tantas lombadas de livros...

╬† Literatura no Mundo ╬†

╬† Autores ╬†

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